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Ainda somos o país do futebol? Ensaio sobre os sentimentos em torno da Seleção Brasileira

Mesmo com a vitória de 6x2 do Brasil contra o Panamá, há uma série de estranhezas e mudanças quando se pensa nessa Copa do Mundo 2026. 

Uma pesquisa realizada pela AtlasIntel apontou que 49,8% do país está pouco ou nada animado com essa copa. Mas o que mudou em relação às copas anteriores?

A primeira estranheza e mudança é o clima de copa na vida cotidiana. É possível apontar que antigamente as pessoas se juntavam e as ruas eram tomadas pelo verde amarelo das bandeirolas e das pinturas. Artes essas que apontavam para um "agora vai" do hexa, um "joga bonito" com figuras clássicas de copas anteriores, o Zé Carioca sambando com uma bola, entre tantas outras representações que nos lembravam sobre ser brasileiro. Era impossível perambular pelas ruas e não ouvir discussões acaloradas sobre quem seria o heroi da copa ou qual seleção nos daria maior trabalho. Na padaria as pessoas tinham certeza de placares exorbitantes ou vitórias fáceis: "Brasil vai ganhar de cinco a zero, no mínimo!", "Quem é a Alemanha perto do Brasil? Temos 5 estrelas!", entre tantas outras frases esperançosas e cenários de solidariedade com a seleção e os brasileiros que eram fortificados por mitologias em torno da amarelinha e o futebol mágico.

Entretanto, o cenário mudou. A mesma pesquisa aponta que “indiferença” (31,8%) e “desconfiança” (39,8%) são as palavras que descrevem o sentimento das pessoas em relação à Seleção Brasileira, e os motivos para esses sentimentos são variados, mas dois se sobressaem: a falta de mitos capazes de sustentar sentimentos de esperança para com a nação e a sensação de perda da identidade com o futebol praticado pela seleção atual.

O exemplo da Copa do Mundo de 1994 ajuda a pensar. O contexto era uma Seleção Brasileira num hiato de 24 anos de títulos e fortes tensões políticas e econômicas, mas a bandeira do Brasil perambulava anos anteriores nos pódios da Fórmula 1 com Ayrton Senna, herói nacional que havia falecido no circuito de Ímola naquele ano. Desse modo, mesmo o torcedor daquela época não conhecendo a cor da taça desde Pelé, havia uma série de vitórias para além do futebol que mobilizaram os sentimentos de confiança com a nação. Ainda, mesmo diante de um contexto tenso, havia uma sensação de representação com os jogadores expresso na narração de Galvão Bueno na final contra a Itália de Baggio:

“Nós realmente somos um só, nós, você aí no Brasil, o jogador lá dentro... Nós vamos de cabeça, nós vamos dividir a bola, nós vamos rasgar a grama, vamos pegar os italianos. Vamos todos juntos!”

Tamanha identificação que foi capaz de desprender o indivíduo das contradições sociais que assolavam o país, capaz de levá-lo a campo e sentir a dor de perder um gol, a tensão de um empate, a ansiedade e dificuldade de realizar uma defesa, desassossego este presente na final de 94 que prorrogou-se até os pênaltis (e esse é de longe o pior teste para o coração do torcedor). A cada batida dos italianos era uma maldição rogada, a cada acerto dos brasileiros era uma celebração adiantada, até o momento que tudo estava nas mãos do imortal goleiro Taffarel. “Todos no gol com Taffarel... Baggio e Taffarel...”, o tempo não passava no silencioso Rose Bowl, “Vai partir!”, a respiração congelou e os dedos cruzaram, “Vai que é sua Taffarel! Partiu! Bateu!”, a respiração aqueceu e as mãos se abriram em direção aos céus para pegar essa bola que passava feliz por cima da trave, “Acabou! ‘Cabou’! Acabou! É tetra! É tetra!”. Enquanto acontecia a comemoração, começa a tocar a música que ficou consagrada com as vitórias no domingo protagonizadas por Ayrton Senna, incrível piloto que morreu no GP de San Marino em 1 de Maio de 1994, os jogadores levaram ao campo uma faixa que dizia: “SENNA... ACELERAMOS JUNTOS, O TETRA É NOSSO!”, nesse momento Galvão Bueno narra: 

“É um momento muito especial para cada brasileiro. É claro que o futebol não soluciona os problemas de uma nação, mas é a nossa maior paixão... Vive no nosso coração, desde que nós nascemos”

Percebam que estamos num cenário parecido: um hiato de 24 anos sem título da Copa do Mundo e tensões políticas e econômicas no país, mas qual a diferença? Atualmente não vemos a bandeira do Brasil ocupar o primeiro lugar em outros esportes e não nos vemos em campo.

Neste último ponto sobre a nossa falta de identificação com os jogadores em campo, a pesquisa traz duas curiosidades: 35,2% dos brasileiros que não vão torcer pelo Brasil (14,2%) vão torcer pela Argentina e 35,8% acreditam que a França possui maior chance de levar a taça. É possível supor que os torcedores encontraram na Argentina e na França aquilo que era tido como apenas nosso: o futebol. Principalmente o jogo mais raçudo e bonito que sobrevoa o imaginário brasileiro nos pés de Adriano Imperador ou Ronaldinho “Bruxo” e que pouco encontra semelhanças nos jogadores atuais, talvez em Neymar que ainda está lesionado.

Em resumo, o que mudou em relação às copas anteriores é que já não possuímos figuras míticas que aquecem nossos corações atualmente e perdemos, em consequência, rituais de solidariedade que reforcem os sentimentos em torno do ser brasileiro.

Mas, tal qual você leitor, também torcemos com a amarelinha e acreditamos que esse ano o Hexa vem!

 

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